segunda-feira, 1 de abril de 2013

(ins) Pire

Só deseja um amor saudável, quem já viveu uma paixão dilacerante. Porque a paixão corroía tudo por dentro até tirar o fôlego, mas até a dor parecia bonita: aquele único instante de felicidade com o Outro compensava os trezentos outros de infelicidade. Só deseja ter um dia tranquilo, sossegado, quem tem a intensidade à flor da pele, quem acorda suspirando a vida, devorando o dia, se lambuzando de tudo sem conseguir tocar nas coisas com a ponta dos dedos. Só deseja constantemente a companhia das palavras quem escreve. Para estas, o silêncio nunca é mudo, é sempre uma possibilidade. Só consegue vislumbrar a paz quem se investiga, quem tem Consciência do que deseja e pode ou não obter, quem aprendeu a lidar com o imediatismo.
 A escrita ensina a esperar, a escutar a letra da música e depois a melodia, juntas e separadas. A escutar a história do Outro sem fazer intervenções antes da conclusão. A compreender que os espertinhos são aqueles que sempre vão terminar levando uma rasteira da própria ingenuidade, porque perderam a inocência. Só consegue acordar para a vida, quem viveu solitário e insone dentro de uma noite interminável e caminhou sonolento pelo resto do dia, quem perdeu o sol. Só consegue apreciar a nudez, quem não é vulgar. Quem percebe com naturalidade que um corpo é como uma árvore, que o seu ambiente é extensão do meio ambiente e que, juntos, ambos são um ambiente inteiro. Só julga acidamente os Outros o tempo todo quem é recalcado. Quem se aprisionou na ideia do que é ridículo e não consegue suportar um ser autêntico.  Só consegue ser irônico, quem é inteligente. Só consegue ser doce, quem já foi ferido e curado pela espiritualidade.
Só consegue o que quer os que têm desejos justos. E acreditam.

domingo, 31 de março de 2013

Sobre as coisas que não se podem explicar


Te olhei. Não bastou o virar do pescoço para a repetição daquela cena. Precisava ao menos te dizer algo.
Mas não disse, congelei as cordas vocais como quem congela o coração ao se apaixonar a primeira vista, se é que isso existe de verdade.Pude sentir teu cheiro na minha roupa, como quem dá uma abraço demorado. Mas a minha presença era imperceptível, seu perfume misturado no meu me levava a lugares que eu pensava ja ter deixado pra trás...lugares que deixei o tempo enterrar, lugares que nenhuma arqueologia jamais poderá encontrar...lugares meus, seus e de mais ninguém. Diziam que talvez nunca me dirigisse a palavra. 
Era da sua personalidade, de sua praxi. Um sutil boa tarde, era o que me cabia. E assim se repetia esporadicamente. Não queria apenas essas palavras de sua boca, queria mais. Queria que dissesse ao menos o meu nome. Queria sentir sua barba encostando na minha pele, ainda maquiada. O barulho de seus lábios, ainda que fosse na minha bochecha. Eu conseguiria. Um simples olhar, de canto de olho, com um sorriso, mesmo que sarcástico, mas um sorriso, eu aceitaria.
Um desvio de atenção na minha direção, qualquer coisa que me faça sentir presente...que me faça sentir sua em uma porção indivisível de tempo, de tão pequena que foi. Lentamente, nas vezes que te via, jogava o cabelo no ombro, numa tentativa de te prender. Minhas roupas, meu perfume, meus lábios, mãos e pernas me levavam até você num magnetismo incompreensível....mas meu juízo me acorrentava nas paredes, me dizendo não....Teus defeitos me atraiam mais, e as qualidades eu tinha ânsia em descobrir. Minha vontade de te deixar escrever suas conquistas em mim era mais forte do que tudo que eu jamais provara. Decidi te envolver, joguei meu laço, queria você na minha teia, para te devorar lentamente.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sobre a lei seca


Desde que te conheci,

não adianta mais esconder
minha vodca, meu uísque,

nem deixar
toda minha cachaça em casa:

só viver
já me embriaga.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Traquitana


Reviro minha memória para te ver sorrir



Alguns dizem que a morte é o fim de tudo. Talvez de todo sofrimento, mas também de toda alegria. Se há algo depois dela, disso não sabemos,mas teremos a oportunidade de um dia saber.


Mas e as lembranças mortas?


Aquelas que um dia morreram, aquelas que foram brutalmente assassinadas, ou até mesmo as que por si só se suicidaram? Elas ressucitam?
A resposta é que lembranças não morrem, apenas adormecem. Estão ali, trancadas no nosso castelo particular, tão lindas e cheias de doçura, tão nossas e tão esquecidas... Elas só esperam o dia em que alguém as arrebate em um cavalo branco.


E foi assim.
Talvez não em um cavalo branco, e talvez nem tenha entrado em meu castelo, mas só teu perfume tenha despertado minhas lembranças, tua voz, teu jeito. Não precisa adentrar no meu profundo, nem me arrebatar pra longe, tem coisas que são melhor adormecidas.


Volta e meia você vem assombrar minha torre, meus sentimentos. Ainda que anestesiada eu sinto sua ameaça. Quantos anos mais será assim? 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Pressuposto




As vezes fico me perguntando...
E se...? Infelizmente a questão é regresso ad infinitum, tentaremos sempre chegar a alguma conclusão, mesmo sabendo que a mesma é impossível. É questionar aquilo que que não se discute. É vão.

O jeito é pressupor uma vida e tentar traçar a felicidade a partir daí. O que vem antes, alguma correnteza já fez questão de encontrar e levar pra longe, pra mares e oceanos. O que importa é daqui pra frente, a bagagem das dúvidas sempre irão existir, sempre vai cansar os ombros de quem as carrega. Vai machucar, vai sangrar e vai deixar cicatrizes que nos mostrarão que é o preço que se paga.

Só há uma maneira de viver...e é vivendo. Admitir suas escolhas, e seguir um caminho não é e nunca vai ser fácil. A bifurcação no meio da estrada vai fazer a sua mente se retorcer e perder noites a fio, pensando na melhor decisão, e por mais certa que ela seja, sempre vai parecer a opção errada.


"O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor"


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O medo e a tempestade

O medo é como a tempestade que faz a gente ficar dentro de casa esperando passar. Ficamos alí sentado aguardando. Você escuta promessas de que um dia essa chuva vai parar e que vai poder sair sem se molhar.

Com o medo, você sente segurança, mas é cobrado um preço alto que é a sua liberdade. O medo faz cafuné para que se sinta protegido, mas não te livra de nenhum pesadelo. Ele conta histórias de heróis que já tentaram sair da casa, mas que foram consumidos pelos raios, só para te impressionar como uma criança que escuta algum conto de fadas. Vai também lembrar você das vezes que tentou sair e que voltou encharcado, triste, ferido e frustrado, prometendo que nunca mais tentaria sair da casa. Você olha da janela do seu quarto e consegue ver bem no final da tempestade alguma coisa parecida com crianças da sua idade brincando felizes, mas fecha rapidamente a cortina para que o medo não lhe pegue admirando essas coisas.
Você é prisioneiro dele e o mais interessante é que nada na casa está trancado, nem a porta para sair, só que você se acomoda com a segurança do local.

Isso tudo até o dia em que resolve ser rebelde. Veste a capa, põe as galochas e parte em direção à tempestade. Começa a andar olhando para o chão, pois os ventos são muito fortes e você mal consegue ver 3 metros a sua frente. As árvores formam arcos e as folhas vão sendo arrancadas violentamente. De súbito, começa a vir tudo o que ouviu do medo antes de ir dormir. Pensa em voltar e dá até alguns passos para tráz, mas não! Desta vez NÃO. Está decidido agora em ir brincar com as outras crianças. O velho medo começa a gritar coisas terríveis lá da porta para que você volte para ele. O barulho que o vento faz é assustador, mesmo assim você não para. Os pingos fortes de chuva já se misturaram com as lágrimas do rosto. É tarde demais para voltar. Lembrou dos céus e pediu por Deus, mas parece que ele te mandou mais raios.
Pronto! Chegou ao seu limite. Aperta os olhos com força. Tudo que o medo contou para você estava de fato acontecendo. Começa a lembrar da vez em que estava na janela olhando as outras crianças de longe. Seu desejo era apenas aquele... liberdade. A capa de chuva se foi com o vento forte; vai também a esperança. Então você sente um calor na face e enxerga o sol. Seca o rosto das lágrimas e da chuva. Olha para trás e procura a tempestade, procura a casa, procura o medo. Percebe que foi tudo uma ilusão, que o medo era ilusão: uma ilusão que mexia com realidade, mas o máximo que podia fazer era assustar... era... mas agora você é livre. Vê agora que tudo o que tinha que fazer antes era encarar a tempestade, pois ela nunca iria parar sozinha. E então... sua vida começa agora. 

Cabe uma penteadeira, cabe minha loucura. (E que ela seja perdoada)

Que as superficialidades a flor da pele sejam esquecidas. Quero ser poço. Profunda.
Vejo-te e o ar preenche cada centímetro do meu pulmão, como um pincel que desliza sobre a tela e forma todo o azul do céu.
Tremores me sobrevêem. Sandices das quais nunca se passaram nessa grande incógnita que acopla o crânio. A fumaça da incerteza paira sobre minhas narinas. Tento aspirar e transformá-la em ações, mas talvez nem elas resolvam essa equação.