domingo, 31 de março de 2013

Sobre as coisas que não se podem explicar


Te olhei. Não bastou o virar do pescoço para a repetição daquela cena. Precisava ao menos te dizer algo.
Mas não disse, congelei as cordas vocais como quem congela o coração ao se apaixonar a primeira vista, se é que isso existe de verdade.Pude sentir teu cheiro na minha roupa, como quem dá uma abraço demorado. Mas a minha presença era imperceptível, seu perfume misturado no meu me levava a lugares que eu pensava ja ter deixado pra trás...lugares que deixei o tempo enterrar, lugares que nenhuma arqueologia jamais poderá encontrar...lugares meus, seus e de mais ninguém. Diziam que talvez nunca me dirigisse a palavra. 
Era da sua personalidade, de sua praxi. Um sutil boa tarde, era o que me cabia. E assim se repetia esporadicamente. Não queria apenas essas palavras de sua boca, queria mais. Queria que dissesse ao menos o meu nome. Queria sentir sua barba encostando na minha pele, ainda maquiada. O barulho de seus lábios, ainda que fosse na minha bochecha. Eu conseguiria. Um simples olhar, de canto de olho, com um sorriso, mesmo que sarcástico, mas um sorriso, eu aceitaria.
Um desvio de atenção na minha direção, qualquer coisa que me faça sentir presente...que me faça sentir sua em uma porção indivisível de tempo, de tão pequena que foi. Lentamente, nas vezes que te via, jogava o cabelo no ombro, numa tentativa de te prender. Minhas roupas, meu perfume, meus lábios, mãos e pernas me levavam até você num magnetismo incompreensível....mas meu juízo me acorrentava nas paredes, me dizendo não....Teus defeitos me atraiam mais, e as qualidades eu tinha ânsia em descobrir. Minha vontade de te deixar escrever suas conquistas em mim era mais forte do que tudo que eu jamais provara. Decidi te envolver, joguei meu laço, queria você na minha teia, para te devorar lentamente.